O LÍBANO SOB O IMPÉRIO OTOMANO - Império Otomano
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O LÍBANO SOB O IMPÉRIO OTOMANO

Para se entender o Líbano atual e a saga de seus emigrantes, é necessário retroceder ao século XIX, quando o império otomano já apresentava um cenário de descentralização administrativa iniciado no século XVIII, fazendo com que os governos locais, aos poucos, se libertassem da burocracia estatal de Istambul e passassem a serem exercidos cada vez mais pelas famílias de “notáveis” urbanos, ou seja, aquelas famílias dedicadas ao comércio e ao mundo letrado do direito e da religião islâmica. A propriedade fundiária também passa a ter uma importância cada vez maior na configuração dessa elite urbana.

A administração e a justiça estatal nas regiões árabes eram exercidas pelos membros da elite local, em língua árabe. A comunicação entre as províncias e Istambul, eram realizada em otomano, uma linguagem burocrática composta por um misto de turco, árabe e persa.

O império otomano era uma espécie de “império fiscal”, onde o relacionamento entre Istambul e as suas províncias, se dava pelo recolhimento de impostos e sua contrapartida, através de proteção militar. As áreas pouco produtivas e de difícil taxação, como os desertos e estepes povoadas por tribos nômades, bem como as áreas montanhosas de difícil acesso, como o Monte Líbano, não atraíam a atenção do estado otomano, que acabava permitindo o autogoverno pelas tribos, clãs e comunidades religiosas locais. Com essa possibilidade clara de fugir ao jugo direto do estado otomano, essa política acabou atraindo comunidades religiosas como os maronitas (2), drusos(3) e alauitas (4), que acabaram por se instalar nas regiões montanhosas do Líbano.

No contexto das províncias árabes do Império Otomano (1), o Líbano sempre foi uma região peculiar – trata-se aqui especificamente do Monte Líbano, conjunto montanhoso a leste de Beirute, caracterizado pela presença dos grupos religiosos maronita e druso, que ali se refugiaram para escapar à ortodoxia islâmica e cristã, respectivamente.
O desenvolvimento histórico desta região, que veio a se tornar o Estado libanês após a anexação de áreas ao sul e ao norte em 1920, deve ser conhecido desde meados do século XIX, para a compreensão dos problemas que até hoje afligem o país, dos quais, um dos mais graves, é a emigração crônica de seus jovens.

Ao final do século XVIII, a região do Império Otomano denominada Síria, onde se encontrava o Monte Líbano, estava dividida em quatro províncias, governadas por pashas: Damasco, Alepo, Trípoli e Saida (antiga Sidon). As famílias governantes desfrutavam de independência quase total, devendo apenas pagar um tributo aos otomanos. Istambul reassumia sua autoridade quando considerava necessário. Frequentemente, os pashas e outros governantes guerreavam entre si, por razões pessoais, políticas ou comerciais.

No contexto religioso, para os judeus e cristãos, foi concedido o status de dhimmis(protegidos). Essas minorias eram consideradas ‘povos do livro’ (Ahlal –Kitab) e suas religiões reconhecidas como predecessoras do Islã. Elas não deviam ser perturbadas e podiam ter uma vida comunal autônoma sob a direção de suas próprias autoridades religiosas, segundo André Gattaz, no seu livro “Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes”.

Apesar de alguns autores observarem que, politicamente, os dhimmi eram cidadãos de segunda classe (não podiam ocupar cargos públicos, servir ao exército, usar certos tipos de cores em suas roupas, usar turbantes ou andar a cavalo) e obrigados a pagar uma taxa especial, a jizya, é inegável que ao longo do século XIX, nas principais cidades da região, os ‘povos do livro’ conheceram um enriquecimento maior do que o da maioria da população muçulmana.

Esse sistema de autonomia das minorias, no qual as comunidades eram governadas por seus próprios líderes religiosos, ocorria desde os primórdios da história muçulmana. Conhecido como millet, o sistema alcançou seu auge sob o domínio otomano. Nas áreas onde essas minorias eram numerosas e proeminentes, como a Palestina, a Síria e, especialmente o Líbano, o arranjo criou um mosaico comunal que persiste até hoje.

A principal característica da sociedade da região do Monte Líbano era seu caráter hierárquico. O ápice da pirâmide social era o Amir, ou Hakim, título concedido aos emires sob soberania otomana. Investido pelo pasha otomano de Saida ou Trípoli, devia pagar-lhe um pequeno tributo, porém sofria interferência mínima em sua administração.
Abaixo do Amir vinham as famílias nobres (muqata’ji), ou lordes das montanhas. Estes, em sua maioria, eram drusos, mas também havia maronitas, greco-ortodoxos e xiitas. A massa da população (‘amiya) constituía-se de camponeses, alguns proprietários, outros meeiros, principalmente maronitas e drusos, mas também xiitas, greco-católicos, greco-ortodoxos e sunitas.

As cidades eram poucas e pequenas e os principais portos (Beirute, Trípoli e Saida) estavam fora das fronteiras do Monte Líbano. Como resultado destes fatores, o Líbano tinha, apesar de uma sociedade pobre e estagnada, um grau de tolerância religiosa desconhecido em outros países do Oriente Médio. Em 1840 começaram a surgir conflitos comunais devidos à inabilidade dos governantes em lidar com as ambições de poder das diversas famílias nobres drusas e maronitas, agravados pelos conflitos de classe entre os camponeses maronitas e os senhores fundiários drusos das montanhas.

Em 1841, o último Amir foi substituído por um pashaotomano que também se mostrou ineficiente para apaziguar a região. Em seguida, sob intervenção dos poderes europeus, o Líbano foi dividido em distritos drusos e maronitas (caicamatos), separados pela estrada Beirute-Damasco, divisão essa que não refletia o balanço populacional, levando a novos conflitos civis. No final dos anos 1850, o Líbano estava em convulsão. No norte, os camponeses maronitas atacaram e expulsaram as famílias nobres, tomando suas propriedades.

O movimento espalhou-se por toda a região e tornou-se um conflito entre os camponeses maronitas e os lordes drusos, conhecido como a “guerra civil de 1860”, na verdade um misto de conflito comunal e luta de classes.
Nesse combate, os drusos, sob a liderança de Said Jumblat, provocaram grandes perdas entre seus oponentes e assumiram o controle sobre os camponeses maronitas. Estima-se que, em quatro semanas, 11.000 cristãos tenham sido mortos pelos drusos, outros 4.000 morreram de desnutrição e cerca de 100.000 tornaram-se refugiados.

Os reflexos deste conflito chegaram até Damasco, onde um massacre deixou cerca de 3.000 cristãos mortos e provocou o êxodo de milhares para a costa. Vários motivos concorreram para a violência desses conflitos. Para o historiador Albert Hourani, um dos principais autores sobre o Oriente Médio, foi a perda de poder e influência árabes e a sensação de que o mundo político do Islã era ameaçado de fora, que acabou por serefletir em “vários movimentos violentos contra as novas políticas, contra a crescente influência da Europa e, em alguns lugares, contra os cristãos locais que lucravam com ela.”

Há que se lembrar também, que os cristãos eram mais ativos no mercado e nas finanças, além de serem os chefes da administração fiscal em algumas cidades importantes, obtendo relativa melhoria econômica e social, o que levou ao ressentimento e oposição dos muçulmanos em momentos de crise social. Por outro lado, o período presenciou, no Monte Líbano, um crescimento relativo da população maronita, que se tornou a principal comunidade da região, pondo em xeque a hegemonia drusa.

Tal crescimento populacional, entretanto, não foi acompanhado de equivalente crescimento e distribuição da produção agrícola, centrada na produção de seda, tabaco e vinho para exportação. A esses motivos deve-se adicionar o crescente interesse europeu pelas regiões pertencentes ao Oriente Próximo e a respectiva formação de “alianças” entre as potências européias e os grupos religiosos das províncias árabes do Império Otomano, numa tentativa dos primeiros de estabelecer bases de apoio naquela região estratégica.
Desta forma, os ingleses passaram a fortalecer os drusos, enquanto os franceses apoiavam os maronitas e os russos defendiam os greco-ortodoxos.

A reação internacional ao conflito druso-maronita foi imediata, com o desembarque em Beirute do exército francês e a intervenção otomana. Em 1861, representantes do Império Otomano, Inglaterra, França, Áustria, Prússia e Rússia assinaram em Istambul o regulamento sobre a administração do Monte Líbano, o primeiro texto oficial reconhecendo a autonomia do Líbano em relação ao Império e o direito das potências de intervir em seus negócios. De acordo com esse documento, o governador (mutasarrif) seria indicado pelo sultão otomano com a aprovação dos governos europeus, sendo assistido por um conselho administrativo representando todas as comunidades religiosas, por oficiais pagos e por uma polícia.

Assim, apesar de a região ter uma clara maioria cristã, seu sistema político oferecia representação e uma parte do poder às comunidades minoritárias. Sob este regulamento, que lançou o fundamento da organização do país, no sistema que veio a ser conhecido como confessional e desfrutando do apoio europeu, o Líbano viveu em relativa calma até a primeira década do século XX, apresentando considerável progresso socioeconômico.

Como parte de um processo comum a todo o Oriente Médio, as potências européias concorrentes procuravam estabelecer suas bases para a formação de elites nativas que lhes fossem favoráveis, fundando escolas e universidades. O local onde este processo deu-se com mais vigor foi o Líbano, devido à presença de grande população cristã. Segundo o raciocínio da Igreja e Estados europeus, era importante proteger e aparelhar (inclusive educacionalmente) a população cristã do Líbano, que desta forma resistiria à expansão islâmica, funcionando como uma cabeça-de-ponte cristã européia em um ambiente plenamente islâmico-árabe.

O papel de educar as elites nativas coube às missões religiosas européias, que, através da criação de inúmeras escolas (em 1913 o Monte Líbano tinha 330 escolas, com 20.000 alunos), fez com que a taxa de analfabetismo fosse extremamente baixa para um país fora da Europa ou América do Norte. Também criaram universidades – como a Universidade St. Joseph de Beirute, fundada por jesuítas franceses ea Universidade Americana de Beirute, por missionários presbiterianos.